Fisiologia e Anatomia: Camuflagem das Aves de Rapina Nocturnas

A camuflagem é a capacidade de um indivíduo passar despercebido, não se distinguindo no meio que o rodeia e tem, como principal objectivo, a defesa contra predadores. Por esta mesma razão, a coloração da plumagem das aves de rapina nocturnas é críptica, ou seja, bastante semelhante ao meio ambiente em redor, passando despercebidas durante o dia, altura em que estas aves repousam, mas grande parte dos seus predadores estão ativos.
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Coruja-do-mato (juvenil).

Assim, a coloração da plumagem das aves de rapina nocturnas varia consoante o habitat ocupado pela espécie, ou seja, em habitats florestais, a coloração é na generalidade acastanhada ou acinzentada, em habitats mais abertos, a coloração é mais clara e, em habitats desérticos, as aves possuem colorações ocres. Mesmo dentro da mesma espécie, podem encontrar-se diferentes fases de coloração.

São disso exemplo a coruja-do-mato (Strix aluco) e o mocho-d’orelhas (Otus scops), que podem apresentar fases cinza, acastanhadas e intermédias. Existem algumas hipóteses que tentam explicar as diferentes fases dentro da mesma espécie, como a distribuição geográfica, o tipo de vegetação (florestas perenifólias ou caducifólias), diferentes subespécies, idade e sexo dos indivíduos. No entanto, por si só, nenhum destes factores explica a existência destas fases.
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Mocho-d’orelhas.

Algumas espécies de aves de rapina nocturnas apresentam penachos ou ‘orelhas’ no cimo da cabeça. Estes penachos são grupos de penas que se encontram erectas quando as aves pretendem passar despercebidas, fazendo parte da sua postura de camuflagem. Estes podem ser observados em espécies como o mocho-d’orelhas ou o bufo-pequeno (Asio otus) encontrando-se também visíveis durante a corte nupcial, quando vocalizam ou se encontram alarmados. Durante o voo estes penachos não são normalmente visíveis.

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Bufo-pequeno.

Esta capacidade de camuflagem é bastante importante na época de reprodução. No caso do bufo-pequeno, que nidifica em árvores, em antigos ninhos de outras aves, normalmente de aves de rapinas ou corvídeos, a preferência por ninhos que se encontrem em árvores de folha persistente (p.e. coníferas, sobreiros, azinheiras) leva a um menor risco de predação, uma vez que a postura desta espécie é normalmente realizada em finais de Fevereiro a início de Março, altura em que as árvores caducas ainda se encontram sem folhas. O risco de predação em árvores caducas diminui em ninhos onde a postura é mais tardia pois, nessa altura, as árvores já apresentam folhas, aumentando a eficácia da camuflagem.

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Coruja-das-torres.
Já a coruja-das-torres (Tyto alba) nidifica em cavidades, normalmente de construções humanas, em locais escuros, sendo o fundo do mesmo composto por egagrópilas esmagadas, também elas escuras. Crê-se que, por essa razão, a fêmea desta espécie possua uma coloração dorsal mais escura que o macho, sendo difícil, para os predadores, detectá-la quando se encontra a nidificar.
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Coruja-do-nabal.

Também a coruja-do-nabal (Asio flammeus) tem a capacidade de passar despercebida enquanto nidifica. O ninho desta espécie é directamente no solo, em zonas herbáceas, de juncos, urzes, etc. e, enquanto a fêmea se encontra sobre os ovos ou crias, mantém os olhos semi-fechados, fazendo com que a íris amarela brilhante fique deliberadamente escondida, não ocultando, no entanto, a pupila. Alguns autores sugerem que esta táctica, aliada ao facto da fêmea ter uma coloração mais escura no dorso quando comparada com o macho, torna-a virtualmente invisível a potenciais inimigos, pois elimina a única característica que chama a atenção, enquanto nidifica.

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Bibliografia

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